Breve relato do Grupo de Estudos: Greve Geral de 1917

Na última terça-feira, dia 13 de junho, concluímos o ciclo de 4 encontros do Grupo de Estudos: Greve Geral de 1917 na Biblioteca Terra Livre. A experiência de auto-formação e educação libertária foi construída coletivamente com uma série de pessoas interessadas, por diferentes motivos e pontos de vista, em compreender a organização das pessoas trabalhadoras no início do século XX em São Paulo.

Em breve teremos novidades sobre os desdobramentos do Grupo que se comprometeu a socializar da melhor maneira possível os construtivos debates que fizemos ao longo de um mês inteiro. Teremos atividades públicas, produção de textos, imagens, quadrinhos e, se tudo correr bem, de um livro sobre a perspectiva anarquista da Greve.

E como anunciava a manchete nas páginas de A Plebe em 23/06/1917: “À CAMORRA BURGUESA. NÃO TARDARÁ A VINDITA DA PLEBE“.

8 anos de fundação da Biblioteca Terra Livre

Há 8 anos dávamos concretude à um antigo sonho: fundar uma biblioteca anarquista em São Paulo. O projeto, tímido e sincero, se desenvolveu com a presença e a participação de muitas pessoas que se envolveram ou apoiaram de diferentes maneiras.

Em 31 de maio de 2009, jogamos despretensiosamente algumas sementes ao ar e hoje vemos que elas germinaram e deram bons frutos! Que a Terra Livre siga sendo uma potente, porém humilde, sementeira de revolta, autogestão e educação libertária.

As raízes cresceram e mais cedo ou mais tarde virão à luz exigir o pão e a liberdade para todas!

Saiba como apoiar o projeto em:

https://unlock.fund/pt-BR/bibliotecaterralivre

 

Chegada de Kropotkin a Rússia

A presença de Kropotkin na Rússia revolucionária mobilizou o interesse dos mais distintos militantes e correntes políticas. Se até mesmo Lênin fez questão de conhecer o célebre geógrafo anarquista, os militantes anarquistas russos e ucranianos também se prontificaram a conhecer o sábio revolucionário.

É Archinov quem aponta em seu livro História do movimento makhnovista (a insurreição dos camponeses da Ucrânia) a compreensão que Kropotkin tinha daqueles que estavam combatendo em prol do anarquismo dentro da Revolução Russa. Archinov afirma:

“Com grande espanto nosso, a maior parte dos anarquistas russos contemporâneos, pretendendo ter um papel preponderante no domínio da ideia anarquista não souberam distinguir os aspectos notáveis da personalidade de Makhno. Muitos deles viam-no julgavam-no através das lentes bolchevistas, fundando-se nos dados oficiais ou prendendo-se com pormenores. Piotr Kropotkin formava uma exceção brilhante nesta maneira de ver. “Dizei da minha parte ao camarada Makhno que tome cautela consigo próprio, porque há poucos homens como ele na Rússia.”1 Estas palavras foram ditas por Kropotkin no mês de Junho de 1919, isto é, num momento em que na Rússia Central não se sabia a respeito de Makhno senão o que constava das deturpadas informações oficiais. A uma grande distância e baseando-se só em fatos isolados, a vista inspirada e perspicaz de Kropotkin tinha descoberto em Makhno uma personagem de uma ação histórica de grande envergadura.”

Se por um lado Archinov relata a importância que Makhno tinha para a Revolução Russa, por outro, é o próprio Makhno que narra em seu livro A revolução russa na Ucrânia (março 1917 – abril 1918) como ocorreu a chegada de Kropotkin na Rússia. O texto de Makhno se encontra disponível em :

Chegada de P A. Kropotkin a Rússia — Encontro com os anarquistas de Ekaterinoslav, por Nestor Makhno

Nota:

1Necessariamente estas palavras de Kropotkin eram um conselho ao camarada Makhno para se resguardar não só fisicamente, mas também moral e revolucionariamente.

Por que não gritamos Diretas Já!?

Pode parecer óbvio neste contexto de eminente queda do atual presidente da república, logo após mais uma alarmante denúncia de facilitação econômica, suborno e uso abuso do poder, que o desejo popular seja pelas eleições diretas. Tal quadro poderia se justificar sobremaneira se lembrarmos quem será aquele que assumirá interinamente o cargo de presidente da república caso haja o afastamento ou deposição do atual, o nome de Rodrigo Maia soa tão tenebroso quanto o do anterior.

Seria então razoável imaginar que o chamado democrático seja pelas eleições Diretas Já. Mas a pergunta que fica é: Por que? Para que possamos o quanto antes ocupar nosso lugar na democracia? O único lugar no qual nos reconhecemos e somos reconhecidos? O lugar do eleitor!?

Ou por que acreditamos que temos um nome honrado, que poderá guiar o nosso país para a redenção política e econômica que tanto almejamos? Ou seria porque queremos que a ordem se estabeleça o quanto antes para que possamos voltar a cuidar de nossas vidas e não tenhamos mais que nos preocupar diretamente sobre isso.

Sim, talvez o exercício do voto seja a redenção para muitos, mas não podemos nos esquecer de que votar não muda nada, nunca mudou e nunca vai mudar.

Talvez, se tivéssemos um pouco menos de pressa para dar uma resposta definitiva, redentora e salvadora, nós pudêssemos respirar fundo e buscar construir ações que apontassem para um horizonte diferente daquele que os governos tem colocado para nós como o único possível.

A busca por uma saída mágica através das “Diretas Já!” ungida pelo suposto do “poder do povo” se tornará uma nuvem de fumaça para a consolidação dos retrocessos que estão em curso. O poder não está em nosso voto, mas sim na nossa capacidade de nos articularmos por fora e contra o Estado. Apesar dos limites impostos por seus organizadores, a paralisação nacional ocorrida no dia 28/05 mostrou a capacidade dos de baixo em se indignar e protestar contra a pouca-vergonha dos de cima. Agora é hora de irmos além: organizar a indignação e generalizar a revolta para agora barrar as reformas trabalhista e previdenciária.

Seria um primeiro vislumbre, ao invés de correr para as urnas, que nossas primeiras ações fossem motivadas por um desejo de justiça e se pautassem pela desobediência civil. Nada mais aviltante do que os lucros recordes dos bancos neste primeiro trimestre, os maiores de sua história, que nos lembram o quão refém estamos nós e os governos dessas instituições.

Vocês já se perguntaram o que o banco produz, que pode render a ele um lucro de R$6,18 bilhões em 1 trimestre? De onde sai este dinheiro? E por que os cortes aos direitos públicos são sempre colocados como a primeira alternativa para o equilíbrio das contas públicas, e não, como deveria ser, a última? Já se perguntou porque o Estado não impõe limite aos lucros exorbitantes obtidos por estas instituições? O Estado é como um cão faminto desesperado lambendo as botas de seu mestre – os bancos – por um punhado de ração.

Tivéssemos nós um pouco mais de tempo e coragem, nos inspiraríamos por todas aquelas respostas que mulheres e homens já ensaiaram por muitas partes e em muitos momentos: Tomaríamos as rédeas de nossas próprias vidas em nossas próprias mãos! Ao invés de acordar todos os dias para servir a alguém, por um punhado de ração, passaríamos nós a nos levantar todos os dias para não mais servir a alguém mas para, enfim, começar a construir aquilo que devemos e queremos fazer.

Bem sabemos nós das necessidades que temos diariamente. Sabemos bem que o que nos falta é o tempo, os recursos e algumas vezes as habilidades. Tomemos nós a responsabilidade de construir este novo horizonte. Ninguém poderá nunca fazer isso por nós.

Se a greve geral do dia 28 de abril relembrou o centenário da primeira greve geral da história do Brasil, talvez nós devêssemos ir além da lembrança e nos inspirar pelas ações daquelas pessoas. Que momento pode ser melhor do que este para construirmos ligas de bairro e assembleias locais (em nossas ruas, locais de trabalho ou grupos em que participamos) para começarmos a articular nossas demandas, sonhos e necessidades e implementarmos isso agora?

Por isso, se alguém vier perguntar:

– E agora que o presidente caiu, o que fazer?

A nossa resposta será:

– Primeiro, a desobediência civil e depois o começo da construção de um novo mundo para nós. Feito de nós por nós.

Kropotkin e a Revolução Russa

Pavel Milyukov e Piotr Kropotkin

Kropotkin e a Revolução Russa, por Mauricio Tragtenberg¹

Após longo exílio no exterior, Kropotkin regressou à Rússia sendo que os primeiros anos da revolução coincidiram com os seus últimos anos de vida. Participou de inúmeros projetos cooperativistas não-estatais e anteviu e criticou a hegemonia que futuramente teriam no Partido Comunista as tendências inquisitórias. Porém, rejeitava liminarmente que tais temas fossem motivos de campanhas anti-soviéticas.

Entre 8 e 10 de maio de 1919, Kropotkin teve uma entrevista com Lênin na casa de Vladimir Bonch-Bruyevich, destacado militante do Partido Comunista russo. O interesse dessa entrevista está no contraste entre as opiniões dos dois interlocutores. Nesse momento, Kropotkin parece acreditar que o regime soviético é verdadeiramente socialista e revolucionário e pode levar a uma série de conquistas populares, apesar dos desvios e corrupções que ele então denuncia a Lênin.

I. Encontro com Lênin, por Vladimir Bonch-Bruyevich.

II. Carta a Lênin – 4 de março de 1920.

III. Carta a Lênin – 21 de dezembro de 1920.

IV. Carta a Georg Brandes.

V. Carta aos trabalhadores da Europa Ocidental – 10 de junho de 1920.

[1] TRAGTENBERG, Maurício. Kropotkin: textos escolhidos. Porto Alegre: L&PM editores, 1987.