Tag Archives: Anarquismo

Antinomia #18: Greve dos Petroleiros

No programa de hj conversamos sobre a greve dos petroleiros. Apesar da categoria estar mobilizada desde o dia 1 d fevereiro, pouco tem se falado na mídia sobre a #greve. Tb comentamos sobre como o #anarquismo vê as greves como formas de ação direta. Dá play e vem com a gente!

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Encontros e experiências no Rio de Janeiro

A Biblioteca Terra Livre e o Laboratório de Educação Anarquista iniciaram 2019 com uma visita ao Rio de Janeiro. A viagem teve como objetivo duas atividades de lançamento do livro ilustrado “A flor”.O primeiro lugar que nos recebeu com muito carinho, no sábado 12.01, foi a Roça, espaço comunitário na favela do Morro do Timbau – complexo da Maré, que veio a existir em meados de 2010 com a proposta de trabalhar coletivamente e em autogestão na distribuição de produtos de pequenos agricultores agroecológicos e produtos naturais e com isso ganhar um certo grau de autonomia. A Roça também dedica sua energia a um cineclube e uma pequena biblioteca para as crianças da região.

O primeiro passo do dia foi, ao fim da tarde, montar a exposição dos tecidos bordados a mão que deram origem as ilustrações do livro em questão. Essa movimentação chamou a atenção de algumas crianças que moram por perto e logo havia uma boa turma, de idades diversas, para participar da atividade. Na calçada da lojinha da Roça foi improvisado um canto de leitura e ali mediamos alguns livros, dentre eles “A flor”. Partindo da leitura e da exposição dos bordados originais, conversamos um pouco sobre a história do livro e seu processo de produção. Aguçada a curiosidade sobre o bordado, mostramos as linhas e as agulhas e partimos para a oficina. Nela, as crianças e adultos puderam experimentar essa linguagem e criar, a partir das linhas, seus próprios bordados com temas variados. Foi muito especial poder conhecer essas crianças e contribuir um pouquinho nesse trabalho sério desenvolvido pela galera da Roça. Por fim ainda tomamos algumas das deliciosas cervejas produzidas por elas e eles. Valeu demais Roça!!! Pra quem não conhece vale dar uma olhada no site https://roca-rio.com/ e quando estiver no RJ já sabe um lugar foda pra colar e somar.

Já no domingo dia 13.01 quem nos recebeu com o mesmo carinho foi a Casa Cultural Formiga Preta, no complexo do Alemão. O espaço busca descentralizar e okupar seja com a biblioteca comunitária, plantio ou atividades em eventos ou mutirões, buscando autonomia e transformação.

O dia na Formiga Preta começou cedo, com a arrumação de parte do acervo da biblioteca comunitária seguida de um delicioso almoço. De barriga cheia começamos a mexer com linhas e agulhas de crochê e logo estávamos prontos para a oficina. Montada a exposição, reunimos o pessoal numa sala (dessa vez apenas adultos, diferentemente do dia anterior) e falamos sobre a produção do livro “A flor” e também do projeto editorial do LEA e da BTL. Partimos então para a mão na massa e todo mundo bordou um bocado. O dia terminou tarde, com roda de jongo, capoeira e coco. Foi mais uma experiência animal de cooperação que nos inspirou muito para continuar o nosso corre. Valeu demais Formiga Preta!!! Tá aí mais um lugar pra fortalecer no RJ!

Nessa viagem ainda deu pra colar e trocar ideia com o pessoal da Escola Quilombista Dandara dos Palmares, da Biblioteca Fábio Luz e do Espaço Outrx.

Voltamos pra SP cheios de força e inspiração.

Valeu camaradas!

A Luta na Educação para a construção da Autonomia c/ Eduardo Antônio Bonzatto no CCS às 19h

2019 completam 110 anos da morte do educador anarquista Francisco Ferrer y Guardia, uma das grandes figuras da educação anarquista e pedagogia libertária. Por isso, a Biblioteca Terra Livre, realizará uma série de atividades ao longo do ano, lembrando de sua história, luta e, principalmente, o sonho de um mundo livre de hierarquias, exploração e opressão da classe trabalhadora e de toda a humanidade.

Para este primeiro encontro, chamamos o professor Eduardo Antônio Bonzatto, onde pretende refletir sobre diversas questões da sociedade brasileira atual, tendo como ponto de partida a educação. Para tanto, irá discutir as dificuldades de ser educador nos tempos atuais, mas também apontar a alegria que sentimos quando percebemos o aumento de nossa realidade, isto é, de nossa força interna e capacidade para agir. Já a tristeza, seria o que sentimos ao perceber a diminuição de nossa realidade, de nossa capacidade para agir, o aumento de nossa impotência e perda da autonomia. Bonzatto acredita que a solução da educação passa necessariamente pelos papéis desempenhados por professores e estudantes que não devem ser hierárquicos, sob nenhuma hipótese, principalmente aquela que ainda defende a necessidade do conteúdo, já que sua mediação é a própria hierarquia. Para a escola cumprir seu papel no tempo histórico atual precisa produzir transformação social, criar uma nova sociedade pautada pelos princípios: respeito, solidariedade, cooperação, singularidade.

E para lembrar das influências da pedagogia racionalista de Ferrer, leia o texto “Guerra Civil Espanhola e as Crianças” de Bonzatto.

Local: CCS-SP. Rua General Jardim, 253, sala22.

Quando: 23/01/2019

Horário: 19h

Diálogos entre a Organização Indígena e Anarquista

No último dia 30 de novembro, a Biblioteca Terra Livre recebeu o militante e antropólogo Guilherme para discutirmos sobre as diversas facetas do federalismo e os possíveis diálogos entre a forma de organização indígena e anarquista.

A atividade ocorreu no Centro de Cultura Social de São Paulo, numa noite chuvosa, mas bastante proveitosa. O evento contou com a participação de um público bastante participativo e que exigiu do debatedor um aprofundamento bastante profícuo.

Guilherme começou nossa conversa fazendo um resgate das diferentes formas de Federalismo, desde o estadunidense, passando ao brasileiro e chegando ao anarquista e indígena. Para tanto, recorreu a um resgate histórico das formas de implementação de cada um destes, inclusive das diferentes perspectivas acerca da organização.

Para Guilherme, o que distinguiria o federalismo estatal do federalismo anarquista e indígena seria que o estatal, apesar de promover uma descentralização política, não elimina a propriedade privada, elemento fundante da desigualdade social.

Fora a questão econômica, a desigualdade social sendo fruto da propriedade privada, também tem sua origem no racismo, derivado do passado colonial e da escravidão. Resgatando os escritos do geógrafo anarquista Élisée Reclus, Guilherme nos lembrou como o anarquista foi um dos poucos pensadores que abordou tal questão em seus escritos e como que entendeu que as lutas pela libertação foram fundamentais para a formação da resistência nesse território. Reclus nomeou essas lutas de guerras de raças, onde as populações indígena e negra travaram uma guerra contra as elites locais brancas pela sua liberdade, como foi o caso da Cabanagem.

Apesar de pontuar esse aspecto importante de Reclus, Guilherme faz outro apontamento fundamental. Reclus, acreditava que para a diminuição, até mesmo o fim do racismo, a miscigenação das raças seria um elemento substancial para o seu fim. Resgatando a crítica do movimento negro contra a Democracia Racial, Guilherme fez a crítica do anarquista Reclus, mostrando os perigos de tal postura.

Foi debatido também a forma como os anarquistas entendem o Federalismo. Resgatando os pensamento de Pierre Joseph Proudhon, Guilherme nos disse que a proposta de organização federalista anarquista propõe uma descentralização do poder político, portanto, das tomadas de decisões e a mutualidade da economia. Segundo René Berthier em seu livro Do Federalismo, editado pela Editora Imaginário e traduzido por Plínio A.Coelho, devemos entender o mutualismo econômico como a livre associação dos produtores em posse dos meios de produção e que estejam articulados a partir de contratos livremente aceitos e que podem ser revogados a qualquer momento mediante a necessidade das partes envolvidas.

A coesão desses grupos é assegurado pelo autogoverno em mutualidade com outros grupos, de se auto-proteger de elementos externos e da tirania interna, focando em suas necessidades locais.

No nível econômico, o federalismo seria o mesmo que a auto-organização dos produtores ao evitar que ocorra uma nova centralização do poder. Portanto, Estado e auto-organização são elementos antinômicos, onde a descentralização não significa dispersão, muito pelo contrário. Seria um sistema integrado de gestão cujos os fluxos não partem de um centro para a periferia, mas que da periferia se espalhariam e até se encontrar num centro.

Para que a descentralização do poder político seja realizada, seria necessário a centralização da economia, com uma unidade no sistema de pesos e medidas, moeda etc., viabilizando a troca entre as associações de produtores. Porém, nem todas as decisões poderiam ser tomadas a partir das localidades, sendo necessário uma instância superior que possa resolver um dado problema. Para isso, o federalismo proudhoniano parte do princípio da subsidiariedade ascendente, ou seja, quando a base não consegue resolver determinado ponto, tal questão sobe a um nível superior. No entanto, este nível superior está subordinado à base e não o inverso.

Trazendo a forma de organização indígena, Guilherme nos apresentou alguns elementos possíveis de diálogo entre anarquistas e povos indígenas. Primeiro, como os indígenas (no caso o povo xavante, do qual estabeleceu contato direto), rechaça qualquer tipo de autoridade – entendendo o princípio de autoridade na relação de mando e obediência. Para o povo xavante, as lideranças não possuem voz de comando, muito pelo contrário, elas estão subordinadas à coletividade. Não possuem o poder de mando/obediência, e o que é pior, devem ser ainda mais generosas que outros indivíduos do coletivo.

E aqui chegamos num ponto bem interessante. Para o povo xavante, o que separa os seres humanos de outros não-humanos é a generosidade. Por isso, quanto mais poder tiver, mais generoso a liderança deve ser, o que impede a noção de acumulação de riquezas, base da economia capitalista desde de sua fase primitiva. Obviamente que existem vantagens em estar num lugar de liderança tal como a honra, o respeito etc., mas estar nesse lugar também é estar numa posição de poder ser cobrado pela coletividade a todo momento.

Um terceiro aspecto interessante, é de que que todo xavante é também um guerreiro, mas que aprendem a lutar para garantir a sua liberdade. Tal perspectiva é diametralmente oposto a um soldado, que tem como dever obedecer seus superiores. Portanto, o uso da violência está intimamente ligada à noção de auto-defesa pessoal e da comunidade em que faz parte.

Explicando todas essas perspectivas, Guilherme nos alertou que o povo xavante não usam o termo política para designar sua forma de organização social. Se tal termo fosse traduzido para o português, teria mais ou menos o significado de intriga. Política, tal como o “branco” as faz, está impregnada de conflitos e jogos de poder, o que não habita o universo cosmopolítico do povo xavante.

Utilizando o termo cosmopolítica, Guilherme nos explicou como que para os indígenas existem elementos que não transitam numa perspetiva anarquista, por exemplo. Pois o lugar do sagrado é fundamental para entendermos as relações sociais que alicerçam a coletividade. Uma delas seria a figura do “pacificador”, que pode realizar um ritual para o fim de uma guerra ou acalmar os ânimos de uma família quando alguém morre misteriosa, pois sempre existe a dúvida de enfeitiçamento. Neste sentido, os anarquistas tem muito a aprender com os povos indígenas, não no sentido de dar metafísica aos seus argumentos e pensamentos, mas de entender essa dinâmica subjetiva que está para além de nossa capacidade racional de compreensão da totalidade.

A relação entre os movimentos indígena e o anarquista ainda são muito insipientes, quase nulas no Brasil. Mas existem iniciativas muito interessantes na América do Norte, como é o caso da Indigenous Anarchist Federation e que podem entrar em contato pelo Twitter.

Para ter mais informações sobre o tema, podem achar os textos de Guilherme no academia.edu clicando aqui.

A Raiz do problema Ecológico

Na quarta-feira, dia 28 de novembro, Jair Bolsonaro, atropelando o Itamaraty, disse que teve parte na decisão de não sediar a conferência do clima das Nações Unidas no próximo ano, a COP-25. Instituições que lidam com a questão climática no Brasil como a WWF-BR e Greenpeace, realizaram uma série de críticas, como o impedimento do crescimento econômico brasileiro diante de tal política.

Diante deste cenário, julgamos interessante resgatar o pensamento ecológico de Murray Bookchin, pensador estadunidense libertário que pensou a ecologia desde os anos 1960. Nosso objetivo, neste texto, não seria a de analisar quais são os interesses envolvidos na decisão do governo, mas de refletirmos a ecologia radical de Bookchin diante da questão ecológica.

Segundo Bookchin, a questão ecológica não é uma questão menor, pois o que está em jogo é a existência humana no planeta Terra, por isso tentará desenvolver uma análise que abordará a raiz do problema.

Para tanto, primeiro, observa como o movimento verde discute a questão ecológica, encontrando três perspectivas: a do eco-capitalismo (uma contradição em termos, segundo o autor), a primitivista e a eco-tecnocrata. A primeira, seriam àquelas das empresas, organizações transnacionais e até mesmo ONGs e fazem a crítica do desmatamento, poluição do meio ambiente etc., mas sem levar em consideração o modo de produção capitalista. A segunda visão, faz referência a uma tendência no próprio seio do anarquismo que prega uma espécie de volta ao paleolítico ou neolítico para a interrupção da destruição ambiental, entendendo que seria a industrialização o grande mal da contemporaneidade. E por fim, a terceira perspectiva coloca o uso da tecnologia como a grande salvadora da eminente catástrofe ambiental que está em curso.

Para Bookchin, todas essas três perspectivas não lidam com a raiz do problema ecológico, desviando a atenção do tema para uma certa “mentalidade tecnológica” ou para o crescimento demográfico, sendo este último apenas um problema relativo, se assim o considerarmos um problema. Para o autor, a raiz dos problemas ecológicos são decorrentes do capitalismo, sendo aqueles argumentos o que chamou de “soluções cosméticas”, que não resolveriam em nada a degradação do meio ambiente, só retardariam – e em muitos casos acirrariam – a degradação do meio ambiente.

No entanto, outro elemento que antecede até mesmo o capitalismo e que também está na raiz do problema ambiental, seria a hierarquia e a dominação, pois seria a partir da dominação do homem pelo homem que se teria originado o conceito de dominação sobre a natureza, tendo como desdobramentos a dominação do homem sobre a mulher, do jovem sobre o velho, de castas, classes, etnias, sexual e qualquer outra estratificação social.

Por isso, não haveria mudança ecológica significativa sem levar em consideração a mudança radical da sociedade, por essa razão cunhou o conceito de ecologia social. Para evitar o biocídio do planeta – destruição global do meio ambiente -, deveríamos ter uma mudança da sociedade capitalista para o que chamou de uma sociedade ecológica através da Revolução Social.

Neste ponto, Bookchin tenta explicar o que entende por uma sociedade ecológica. Evitando cair no misticismo primitivista e no fetichismo eco-tecnocrata, o autor nos diz que a sociedade ecológica é uma sociedade sem classes e não-hierárquica, portanto, sem qualquer forma de dominação. Para tanto, resgata o pensamento anarquista do geógrafo Piotr Kropotkin e dos italianos Errico Malatesta e Camilo Berneri, ecologizando o pensamento anarquista clássico de tradição iluminista.

Seguindo este caminho, Bookchin coloca a humanidade “na” natureza e não fora dela, nos falando que a humanidade possui sim um lugar diferenciado em relação à outras espécies, tendo em vista sua capacidade de pensar conceitualmente e de se comunicar simbolicamente. Portanto, o que faz a humanidade ser única em relação aos não-humanos é de ter certo grau de auto-consciência e flexibilidade de sua compreensão acerca da totalidade (entendo o conceito de totalidade, não no sentido de saber de tudo, mas de compreender a complexidade que envolve o estar no mundo, sem saber de tudo).

Assim, o conceito de humanidade de Bookchin não é aquele abstrato do iluminismo clássico, mas uma humanidade marcada pelas diferenças culturais, étnicas, etárias etc., e nesse sentido, reflete num devir ecológico e não num ser ecológico.

Tal transformação não viria a partir de um órgão centralizado, como o Estado, pois mediante as disputas internas dessa organização o máximo que se chega é em alguma solução cosmética, tendo em vista os interesses econômicos que faz parte do Estado. Fora esta questão, o Estado impede a participação popular, tão importante para o desenvolvimento de uma democracia direta. Muito pelo contrário, perpetua a exploração capitalista não dando o tempo necessário para a atuação política do.a trabalhador/a.

Refletindo uma alternativa, Bookchin pensa no uso da tecnologia para conceder esse tempo de “ócio criativo” tão necessário para a construção de uma maior participação das decisões políticas. Mas é importante dizer de novo e ressaltar, que não cai no fetichismo tecnocrata.

Para Bookchin, uma nova política deveria ser criada a partir da base, em um nível comunitário, um poder popular que se organiza de baixo para cima, o que chamou de confederação de municípios livres, servindo de um contrapoder de base à centralização estatal, fortalecendo os modos de vidas comunitários.