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A história dos Cursinhos Livres de São Paulo: A construção de uma pedagogia da Ação Direta

Vitor Ahagon[1]

As reflexões que aqui compartilho são frutos de muitos debates com companheiros e companheiras do movimento anarquista, dos grupos de estudos Anarquismo e Educação da Biblioteca Terra Livre e das minhas experiências nos Cursinhos Livres de São Paulo. Agradeço à todas as pessoas que puderam partilhar um pouco de suas perspectivas e espero conseguir dar conta desse projeto em educação libertária tão bonito e pujante e que inspire a criação de novas iniciativas.

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Desde os anos 1990, com a maior oferta de vagas às Universidade, cresceu o número de cursinho populares em todas as cidades do Brasil e a Rede de Cursinhos Livres de São Paulo, se inserem dentro desta história de cursinhos populares, comunitários e, também, da mais recente trajetória dos cursinhos ditos “livres”. O primeiro cursinho livre surgiu na Lapa a partir do encontro de alguns militantes do espaço autônomo Casa Mafalda – que hoje já não existe mais em detrimento da falta de verba – e companheiras/os do bachillerato popular da Argentina. Se inspirando nas/os companheiras/os da Argentina, na educação anarquista (Escuela Moderna de Francisco Ferrer y Guardia e Escolas Modernas n.1 e 2 de SP) e nas experiências acumuladas por mais de duas décadas do Cursinho da Psico, nasceu o Cursinho Livre da Lapa (CLL) em 2015.

No mesmo ano, explodem por toda São Paulo, e depois em todo Brasil, as ocupações das escolas públicas contra a reforma do Ensino Médio do (des)governador Geraldo Alckmin, do PSDB. A partir dessas mobilizações, um grupo de estudantes secundaristas e educadores/as fundaram o Cursinho Livre da Sul – Ariba lxs que luchan (CLS-ALL), seguindo princípios muito próximos do CLL.

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No fim do ano de 2015, alguns educadores/as do CLL e militantes do espaço cultural Mané Garrincha se encontraram para discutir a possibilidade de fundarem um outro cursinho livre. Deste encontro, no começo do ano de 2016, nasceu o Cursinho Livre da Sé (CLS), funcionando no espaço Mané Garrincha.

No meio do ano de 2016, militantes que residiam na zona leste de São Paulo e alguns educadores/as dos outros CLs, resolveram fundar um cursinho livre intensivo para o ENEM, suprindo a necessidade da região. Desta vontade, nasceu o Cursinho Livre da Penha (CLP), porém, esta experiência durou pouco, tendo em vista que funcionava na garagem cedida por alguns companheiros que participavam do projeto e que se mudaram no fim daquele mesmo ano.

No começo do ano de 2017, militantes que residiam na Zona Norte de São Paulo, inspirados em toda essa história e experiências, fundam o CLN e que segue em funcionamento. E no ano de 2018, estudantes do CLS, por conta da dificuldade em pagar o transporte público e da distância fundaram o Cursinho Livre Cláudia Silva Ferreira (CLCSF), na zona Oeste de São Paulo.

A concepção dos Cursinhos Livres

Hoje, poucos são os jovens que saem das escolas públicas e conseguem ter acesso ao ensino superior gratuito. Diferente de outras realidades, quem mora na periferia além de precisar trabalhar para ajudar no sustento de casa, precisam se deslocar por grandes distâncias para ter acesso aos conteúdos que são cobrados no vestibular. Além disso, as mensalidades são muito caras dificultando ainda mais que estes jovens entrem para a universidade.

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É dentro deste contexto e com o objetivo de democratizar o acesso à universidade que surgiram os Cursinhos Livre. Partindo do princípio da autonomia política e pedagógica os CLs se empenham em construir um ambiente em que estudantes e educadores/as consigam experimentar uma vivência em pedagogia libertária e anticapitalista, estabelecendo relações de horizontalidade, solidariedade e liberdade responsável. Para isso, pensam que o trabalho coletivo, com outros coletivos e cursinhos, é fundamental. Por isso, buscam sempre realizar atividades, debates, conversas e discussões com companheiras/os de luta.

Dos princípios dos Cursinhos Livres

Os CLs fundamentam-se em oito princípios estruturantes que servem de orientação para a prática em aula e também durante a gestão das atividades, o primeiro de seus princípios é a  Autonomia política, econômica e pedagógica. Por autonomia, os CLs entendem que os objetivos dos cursinhos devem ser independentes e contrários às ideologias conservadoras e a manobras políticas, assim, não aceitam submeter os princípios e objetivos dos Cursinhos a interferências externas do ponto de vista político, pedagógico e econômico.

O Anticapitalismo, como segundo princípio considera que o capitalismo como sistema ideológico, político e econômico busca explorar e dominar a classe trabalhadora reproduzindo as desigualdades. Por isso, colocando-se contra sua lógica de organização da sociedade e em favor do fortalecimento das lutas anti-sistêmicas, não baseando suas ações em relações monetárias e na lógica da meritocracia.

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O terceiro princípio é o da Horizontalidade, buscando construir relações livres de hierarquia onde as tomadas de decisões sejam feitas pelas pessoas envolvidas no processo, sejam elas estudantes ou professoras/es.

A Valorização dos grupos socialmente marginalizados é o quarto princípio dos Cursinhos Livres. A partir dele, os CLs não aceitam posturas negativas e discriminatórias, em especial contra mulheres, pessoas negras homossexuais e pessoas trans, se comprometendo a valorizar sua história, cultura, saberes e lutas.

O Conhecimento crítico também é parte de seus princípios, entendendo que o contato com opiniões diversas, desde que elas não violem os princípios do Cursinho, enriquecem as discussões e constrói seres humanos mais críticos. Se comprometem, assim, a problematizar as verdades preestabelecidas, tanto no que diz respeito ao conhecimento requerido no vestibular, quanto ao papel convencional de educadoras/es em sua relação com estudantes.

No que tange a sua forma de organização social, o sexto princípio é o do Federalismo, ou seja, a descentralização do poder. Nos CLs se constrói uma forma de organização que busca a autonomia dos indivíduos nas áreas[2], das áreas no Cursinho e do Cursinho em relação à outros Cursinhos, não havendo, assim, a centralização de poder na posse de um, de pouco ou de muitas pessoas, mas sim um poder que esteja com o indivíduo e o coletivo, ao mesmo tempo. Valorizam também a participação ativa de educadores/as nas atividades do cursinho através de uma gestão coletiva.

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Em minha opinião, o sétimo princípio dos CLs é o que os diferencia de todos os outros cursinhos populares ou comentários, este é o da Ação direta. Os CLs entendem que a história nos mostra que as autoridades, sejam elas públicas, privadas ou religiosas, não têm e não tiveram o menor interesse em fornecer às classes populares uma educação crítica e que desse acesso às universidades. Por isso, criaram, coletivamente, suas próprias formas de organização e os meios pedagógicos para garantir esse acesso, sem esperar ações de intermediários ou representantes. Segundo os Cursinhos Livres “Ninguém melhor que a periferia que por tanto tempo foi esquecida para traduzir tão bem isso em poucas palavras: é nóis por nóis.”

E por fim, e não menos importante, o oitavo princípio é o do Apoio mútuo. Pautando as ações do Cursinhos e de estudantes e educadoras/es na cooperação e na solidariedade entre os indivíduos que se associam livremente para lutarem pela sua liberdade. Os CLs consideram o apoio mútuo antagônico à competição, que é a base da moral capitalista.

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Forma de organização

Boa parte da estrutura dos CLs de SP, vieram dos acúmulos que o Cursinho da Psico põe em prática até hoje. Para entendermos melhor como funciona, tomemos como exemplo o CLN e vejamos como foi construída sua organização. Até 2017, o CLN funcionava em dois lugares, no Centro Cultural da Juventude, de terça à sexta-feira das 19h às 22h, e na EMEF Prof Gilberto Dupas as segunda das 19h às 22h e aos sábados das 10h às 14h. Existia, em média, cerca de 15 a 20 estudantes, sendo em sua maioria mulheres, negras e da periferia, somando a esse número cerca de 20 educadores/as de todas as áreas: matemática, língua portuguesa, redação, química, física, biologia, geografia, história, língua inglesa, orientação vocacional[3], linguagens[4] e política[5].A organização se dava através de comissões. Estas comissões poderiam ter caráter permanente ou temporário, dependendo da sua função. Delas poderiam participar qualquer pessoa que fizesse parte do projeto, desde educadores/as até estudantes. Naquele ano existiam 4 comissões: Comunicação, Mediação pedagógica, Articulação Política e Finanças. As comissões serviam para fazer andar as decisões que haviam sido deliberadas em assembleia geral, onde todas as pessoas podiam participar, estudantes e educadores/as. Na assembleia, as decisões eram tiradas em consenso, com muita discussão.

Até 2017, como o CLN estava funcionando no CCJ e na EMEF G.Dupas, não pagavam o aluguel, já os materiais que eram usados em sala de aula foram fornecidos pelos próprios educadores/as. No entanto, existia no horizonte dos educadores/as do Cursinho Livre ter seu próprio espaço aumentando a autonomia e potência do projeto.

Naquele momento, ainda não tinham seu próprio material didático, por isso as aulas eram feitas pelos próprios educadores/as, utilizando as referências que cada um possuía. Porem, estava em seus horizontes criar o próprio material. Neste sentido, duas propostas estavam sendo encaminhadas: a primeira delas foi concretizada, a de fazer um podcast do CLN, aliando os conhecimentos aprendidos e a habilidade de criar ferramentas de propagação desse conhecimento; a segunda, e que ainda está em andamento, seria um material impresso com os conteúdos em formato de fanzine.

Existiam também as saídas pedagógicas, onde o objetivo seria discutir com as/os estudantes os temas que debatidos em sala de aula, tomando contato direto com o conhecimento. Assim, visitou-se o museu da resistência na estação da Luz e no CLL, foi feita uma saída de campo na praça da Sé, observando as dinâmicas que ali existiam e, inclusive, seus conflitos.

Partindo dessa mesma premissa, o do contato direto com o conhecimento, outra atividade do cursinho eram as conversas e debates que fazem com movimentos sociais e coletivos. Em uma das oportunidades, por terem tido uma discussão sobre movimentos de moradia, foi convidado a Ocupação Aqualtune, discutindo o acesso à cidade, moradia, emprego e dignidade. No mês da visibilidade lésbica, foi feita uma conversa com o coletivo brejo das flores, discutindo-se a discriminação sexual e outros temas. Em outra oportunidade, foi realizada uma oficina de podcast com o coletivo Desobediência Sonora e também uma conversa sobre encarceramento com o Coletivo Autônomo Herzer.

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Uma história inacabada…

A experiência de construção dos CLs ainda não está acabada. Apesar de não terem começado do zero, aprendendo com as experiências dos cursinhos anteriores, existem muitas situações novas e que tentam responder da melhor forma possível, seguindo sempre os seus princípios. Uma das dificuldades que enfrentam é o número reduzido de educadores/as e estudantes que tem participado das assembléias. Os/As educadores/as pensam que essa situação pode ser indicativo de duas questões: primeiro, o modo de vida capitalista nos impede de termos tempo suficiente para que possamos dispor da nossa energia num projeto onde o envolvimento é grande, por isso o trabalho que se realiza nesses espaços ganha um caráter muito mais voluntário do que militante. Em segundo lugar, o processo de construção de um projeto político que se dá de forma horizontal sempre será mais difícil de ser realizado, tendo em vista que fomos socializados, durante toda nossa vida, em estruturas hierárquicas, tais como a família, escola, trabalho, igreja, etc. As/Os educadoras/es dos CLs acreditam que construir autonomia sendo sujeitos heteronômicos é o grande desafio da contemporaneidade, pois este é um dos pilares da dominação de gênero, raça, sexualidade, religioso e de classe.

Apesar de todas as dificuldades, estudantes e educadores/as-militantes dos CLs consideram que construir um projeto pautado em seus princípios seria como tomar a vida em nossas próprias mãos. Pensam que a liberdade não se é dada, mas sim, conquistada, pelo trabalho coletivo e solidário. Neste sentido, todas as pessoas que partilham desse sonho e desses projetos, dizem juntos aos zapatistas : “A liberdade é como a manhã: alguns a esperam dormindo, porém alguns acordam e caminham na noite para alcançá-la”.

Notas:

[1] Professor de história e membro da Biblioteca Terra Livre.

[2] Chamamos de “áreas” as ditas “disciplinas” para o ensino tradicional. Assim nomeamos, tendo em vista que consideramos que o conhecimento não serve para o disciplinamento, mas sim para a emancipação.

[3] Sentimos a necessidade de chamar educadores/as que soubessem fazer uma discussão com as estudantes que não se reduzisse ao mercado de trabalho, mas que ajudasse a elucidar algumas dúvidas sobre o futuro profissional, para isso foi feito um chamado para psicicólogas/os e psicopedagogas/os. Mas não pensamos apenas esse aspecto, tomando emprestada as experiências do Cursinho Popular Transformação e a preocupação com a saúde psicológica de estudantes e educadores/as, criamos mais essa área.

[4] A área de linguagens tem como objetivo, fazer com que estudantes possam manter contato com outras formas de apreensão de mundo, não apenas pela via racional, mas também sensível. Acreditamos que essa é uma tarefa fundamental, tendo em vista o mundo coisificado do capitalismo.

[5] A área de política busca abarcar os conhecimentos de sociologia e da filosofia, mas não apenas através de discussões teóricas e conceituais, por isso, fora as discussões concernentes à esses conhecimentos, buscamos todo mês trazer um coletivo ou movimento social que esteja envolvido em alguma prática daquilo que estamos discutindo em aula. Portanto, movimento sociais e coletivos não são vistos por nós como objeto de conhecimento, mas como agentes sociais em diálogo constante com o cursinho.