A organização da saúde na Revolução Espanhola

Em meio à crise da falta de médicos no Brasil, com a saída dos médicos cubanos do programa mais médicos, a frustração abate aqueles que são comprometidos com a causa dxs de baixo, assim como o desespero se instala no coração de quem sofre diretamente com essa política asquerosa do atual governo. Tendo em vista essa situação, pensamos como que, ao mesmo tempo, somos dependentes dos temperamentos dxs de cima e como poderíamos reverter essa situação com as nossas próprias forças. Nesse sentido, sempre é interessante lembrarmos da grande Revolução Espanhola, desta vez refletindo a maneira como a saúde foi organizada nesse grande acontecimento.

 

Fora as discussões sobre as ações do ministério da saúde encabeçada pela famosa anarquista Federica Montseny, que legalizou o aborto na península espanhola revolucionária, preferimos discorrer sobre a militância anarquista de base e como resolveram os problemas da saúde. Em outras palavras, verificar em que medida a atividade revolucionária anarcossindicalista da Confederación Nacional del Trabajo e Federación Anarquista Ibérica afetou o âmbito sanitáirio.

Antes de tudo, devemos dizer que a CNT era uma organização sindical que tinha grande desconfiança da classe médica, pois acreditavam que estes profissionais possuíam uma mentalidade burguesa e que exerciam sua profissão de forma mercadológica. Tal postura muda com o início da guerra, por conta da necessidade dessa atividade em detrimento dos doentes e feridos de guerra, mas também de civis.

 

Apesar da postura crítica da CNT à classe médica, existia em seu interior anarquistas médicos que tinham larga experiência na militância, como era o caso de Isaac Puente. As críticas que eram feitas à medicina capitalistas dos médicos anarquistas da CNT era de que as doenças e enfermidades derivavam da exploração capitalista, ou seja, das péssimas condições de trabalho e da influência da Igreja Católica nos hospitais, já que se recusavam tratar pessoas que não fossem religiosas.

Nos anos pré revolucionários, os debates sobre a saúde transitavam em todos os círculos revolucionários. No interior do movimento anarquista, os temas discutidos eram o naturalismo, o neomalthusianismo, o controle de natalidade, o aborto etc. Debates acalorados eram travados também entre socialistas e anarquistas. Os primeiros, encampavam projetos e propaganda favoráveis ao modelo de seguros sociais, amplamente combatidos pelos libertários. Estes acreditavam que o modelo das sociedades de socorros mútuos eram reformistas e não combatia o problema em sua raiz, por isso os médicos da CNT pensavam que a melhor estratégia seria a Ação Direta.

Essa abordagem ancorava-se na perspectiva de que as doenças, físicas e psicológicas, eram decorrentes da exploração e opressão da classe trabalhadora, sendo a Revolução Social o único meio para se ter uma vida saudável.

Com o início da Revolução Espanhola, logo nos primeiros meses da guerra revolucionária, a CNT abriu 5 hospitais só em Barcelona. Em Valência foram criadas diversas instalações de saúde, com policlínicas com atendimentos tanto para os civis quanto para receber os feridos da guerra. Todas as áreas da saúde foram atendidas, como a odontologia e o cuidado com a mulher. Sobre esse último aspecto, foi criado o Hopital de la Maternidad da CNT, próprio para o atendimento de mulheres grávidas, que tinham por objetivo dar um tratamento diferenciado e mais humano. Logo nos três meses de seu funcionamento atendeu mais de 90 mulheres. Foi criado assim, uma rede gigantesca com diversos agentes de saúde e instalações sanitárias pela Espanha Revolucionária.

Mas como os médicos da CNT-FAI organizaram essa rede? Assim como nas fábricas e no campo, foram realizadas as chamadas coletivizações, onde o primeiro passo era expropriar os locais e os materiais para as novas instalações e pô-los à serviço da população. Os prédios utilizados poderiam ser antigos hospitais ou qualquer prédio que service para a atividade e que estivesse desocupado. Os profissionais religiosos que já trabalhavam nos antigos hospitais eram retirados e colocados outros laicos. A direção era desfeita e em seu lugar eram colocados delegados técnicos e civis escolhidos em assembleia, estes compunham o Comitê Administrativo Diretor, que estava articulado à CNT e UGT. Os serviços médicos estavam articulados em vinte departamentos voltados para o atendimento de civis e quatro para os feridos da guerra.

Estas unidades de saúde eram coordenadas dela Controle Sanitário, sendo que sua atribuição era a de controle da afiliação de profissionais da saúde da CNT, prover materiais médicos e alimentos para os hospitais e clínicas, centralizar a alta e a saída de doentes e feridos e organizar o controle da contabilidade. Os responsáveis pelo Controle Sanitário eram um médico da CNT, um médico local e um engenheiro assessor.

O comitê sanitário estava articulado ao Comitê de Saúde Popular, que existia em cada uma das províncias e no caso de Valência, seus delegados eram escolhidos pelo Comitê Executivo, que possuíam estreita relação com a CNT. O Controle Sanitário estava também articulado à Delegação Sanitária Regional do País Valenciano, que tinha por objetivo coordenar os serviços de saúde nas três províncias de Valência sem ferir a autonomia dos comitês de saúde. Estes comitês, dentre outras responsabilidades, recolhiam dados das condições de saúde da população de cada uma das províncias.

A experiência na área da saúde de inspiração anarquista começou a perder força no final do ano de 1937, quando o governo da esquerda republicana começou a receber auxílio da URSS. Com esse auxílio, o até então inexpressivo Partido Comunista espanhol ganhou força e dá início ao processo de centralização e militarização do governo. O argumento do PCE, Partido Socialista espanhol e dos republicanos era a de que a guerra deveria ser vencida para que depois se fizesse a revolução, o que foi duramente combatido pelos anarquistas da CNT-FAI e pelos comunistas do Partido Operário de Unificação Marxista, o POUM, estes diziam que a guerra e a revolução deveriam ocorrer simultaneamente. Com essa discórdia no interior da frente antifascista, os anarquistas e os militantes do POUM sofrem diversos boicotes por parte do governo (PCE, PSE e esquerda republicana), como a falta de abastecimento de alimentos, armas e munições nas frentes de batalha. Com isso, ocorreu uma guerra dentro da guerra, mas agora travada entre anarquistas e POUM contra o governo. Assim, a Revolução foi traída em nome da “vitória” contra o fascismo.

Para saber mais sobre a organização dos médicos anarquistas na Revolução Espanhola, leia o texto Anarcossindicalismo y sanidad en la retaguardia y en la frente. Los casos de Valência y de la Columna de Hierro durante la Guerra Civil española, de Xavier Garcia Ferrandis. Nele vocês vão encontrar uma extensa bibliografia sobre o tema.

2 thoughts on “A organização da saúde na Revolução Espanhola”

  1. Excelente documento e análise.
    Além da questão da saúde e necessário coletivizar a Educação em todos os níveis. Precisamos criar associaçoes e/ou cooperativas de Ensino para podermos levar adiante a Educação Libertária e o nosso projeto societário.
    Saudações

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