Mujeres Libres da Espanha

INFORMAÇÕES:
Título: MUJERES LIBRES DA ESPANHA
Autor: MARGARETH RAGO E MARIA CLARA BIAJOLI
Editora: BIBLIOTECA TERRA LIVRE & EDITORIAL ELEUTERIO
Idioma: português
Encadernação: Brochura
Dimensão: 21 x 14 cm
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: Agosto de 2017
Número de páginas: 224
Preço: R$ 30,00

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SUMÁRIO:

APRESENTAÇÃO:

Há 80 anos era fundada Federación Mujeres Libres, uma organização política criada em plena Revolução Espanhola (1936-1939) que buscava articular e organizar as mulheres a fim de libertá-las de sua tripla escravidão: a da mulher, a da ignorância e a de produtora. O trabalho concreto das Mujeres Libres havia se iniciado no ano de 1936, com a publicação da revista Mujeres Libres. No ano seguinte, com a criação da federação, elas constituíram ações que buscavam capacitar cultural e socialmente as mulheres, através de atividades como palestras, conferências e projeções etc., afim de tornar as mulheres ativas e diretamente envolvidas nos rumos do processo revolucionário em curso.

A organização chegou a contar com mais de vinte mil mulheres associadas em todo o território espanhol. Tal experiência, até então única na história, recentemente reverberou e encontrou outra, análoga a esta, no Oriente Médio: o YPJ (Yekîneyên Parastina Jin) ou Unidades de Proteção das Mulheres. Criado em 2013, o YPJ conta com mais de vinte quatro mil mulheres e assumiu, em meio à Revolução Curda, o papel de libertar as mulheres de seus mais de cinco mil anos de opressão, fazendo isso sem distinção ou discriminação entre religiões, línguas, nacionalidades e raças.

O processo de libertação passou a ocorrer de modo mais sistemático através da Jinealogia¹, base ideológica, filosófica e intelectual desenvolvida pelas mulheres para a superação da sociedade patriarcal. Assim como o trabalho realizado pelas anarquistas espanholas, as revolucionárias curdas compreendem a centralidade em garantir o acesso às mulheres ao conhecimento e à ciência, o que as levou a criação de academias de mulheres, espaços de discussão e compartilhamento de saberes em que são desenvolvidos temas como: as mulheres e as ciências sociais, mulheres e economia, as mulheres e história, mulheres e política, mulheres e demografia, ética feminina e estética.

As similaridades entre as ações das Mujeres Libres e do YPJ, nos convidam a conhecer mais a fundo tais projetos e ações. Se por um lado a luta das mulheres curdas tem contado com uma série de atividades, documentários e publicações recentes sobre sua luta e história², as revolucionárias espanholas permanecem ainda pouco conhecidas³ na América Latina.

Não fosse o trabalho de pesquisa de Margareth Rago e Maria Clara Pivato Biajoli realizado no início do século XXI, possivelmente tal história ainda seria desconhecida em língua portuguesa. As autoras percorreram arquivos, levantaram documentos e entrevistaram uma série de mulheres que ativamente participaram da organização Mujeres Libres. O resultado deste árduo trabalho foi a publicação do livro Mujeres Libres da Espanha: Documentos da Revolução Espanhola, editado pela primeira vez 10 anos atrás – ano em que se celebrou os 70 anos de fundação da Federação – pela editora Achiamé. O livro contou com uma seleção de textos publicados na Revista Mujeres Libres, cartas, imagens e algumas entrevistas relizadas pelas autoras com militantes anarquistas espanholas, além de textos introdutórios que contextualizam e introduzem a história desta organização.

A primeira edição do livro não teria se materializado não fosse o permanente estímulo do editor Robson Achiamé (1943-2014), junto às organizadoras. Robson, com seu modo sempre generoso e plural, reunia junto de si militantes de diversas vertentes do anarquismo para construir seu projeto editorial. É em respeito à memória e ao trabalho de Achiamé que a presente edição mantém todos os textos da primeira edição, inclusive os da quarta capa e da orelha, aos quais é acrescido o texto A questão feminina em nossos meios ou um prólogo para Mujeres Libres, de Thiago Lemos Silva, na introdução, além de manter algumas das imagens da primeira edição. As demais imagens contidas nesta segunda edição são em sua maioria de autoria de Kati Horna, fotógrafa anarquista que participou ativamente da Revolução Espanhola e colaborou com as Mujeres Libres.

Kati Horna (1912-2000), nasceu na Hungria, e desde jovem manteve amizade com o fotógrafo Robert Capa. Perseguida pelo avanço do nazismo na Hungria, viajou com Capa para Espanha, em 1937, a fim de apoiar e documentar o processo revolucionário em curso. Cada vez mais comprometida com os ideais anarquistas, buscava retratar a situação das aldeias coletivizadas de Aragão, não através de imagens dos feitos heroicos, mas do retrato de homens, mulheres, crianças e anciãos que a viviam e a sua vida quotidiana atrás dos frontes de batalha. Em julho do mesmo ano se integrou ao coletivo editor da revista Umbral, além de colaborar com outras publicações anarquistas como Tierra y Libertad, Tiempos Nuevos e Mujeres Libres. Horna passou a definir a si mesma, em meio a este processo revolucionário, como uma “operária da arte”.

É neste esforço de fazer com que tais mulheres sejam relembradas e seus feitos e ações possam continuar vivos, inspirando novas gerações de militantes, que a Biblioteca Terra Livre e o Grupo de Estudios Gómez Rojas, por meio da Editorial Eleuterio, coeditam esta segunda edição do livro Mujeres Libres da Espanha. Esta edição do livro, assim como ocorrido na publicação do livro A questão feminina em nossos meios, de Lúcia Sánchez Saornil, está sendo publicada em português em São Paulo (Brasil) e em espanhol em Santiago (Chile), possibilitando assim uma ampliação de horizontes para a publicação e um amplo acesso ao livro.

Por fim, relembramos, assim como Lúcia Sánchez Saornil, que é nosso dever constante relembrar os nomes e histórias destas mulheres para que elas possam seguir vivas em nossas ações:

Nomes de mulher diante dos quais foram quebradas todas as agudezas da ironia; nomes de pobres mártires que serão como os de La Libertaria e Encarnación Giménez, o ultraje mais negro na frente de nossos inimigos.

Foram mais que mães, irmãs e companheiras; foram simplesmente mulheres, afirmações de uma consciência recém-nascida, anúncio de um potencial de realizações incalculáveis.

Algum dia, desenterraremos estas queridas mortas para escrever seus nomes gloriosos na História.4

Biblioteca Terra Livre & Editorial Eleuterio
São Paulo / Santiago, Agosto de 2017

Notas:

1 O termo Jinealogia significa “ciência das mulheres”. “Jin” em curdo significa “mulher”, logia derivada do termo grego “logos”, conhecimento. No grupo de línguas indo-europeu e no Médio Oriente as palavras Jin, Zin ou Zen, significam “mulher”, e muitas vezes são sinônimo de vida e vitalidade.

2 Para mais informações ver: VV.AA. Şoreşa Rojavayê: Revolução, uma palavra feminina. São Paulo: Biblioteca Terra Livre / Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo. São Paulo, 2016.

3 Ver: SAORNIL, Lucía Sánchez. A questão feminina em nossos meios. Biblioteca Terra Livre/Editorial Eleuterio. São Paulo/Santiago, 2015.

4 _____. Op.cit., p. 82.