A Greve Geral de 1917

CAPA e contracapa ROCKER

INFORMAÇÕES:
Título: A GREVE GERAL DE 1917: PERSPECTIVAS ANARQUISTAS
Autor: VÁRIOS
Editora: BIBLIOTECA TERRA LIVRE
Idioma: português
Encadernação: Brochura
Dimensão: 21 x 14 cm
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: Novembro de 2017
Número de páginas: 288
Preço: R$ 35,00

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SUMÁRIO:

APRESENTAÇÃO:

A greve ou é uma revolta ou uma enganação.
La Revolté, 1887

No ano em que “comemoramos” o Centenário da Greve Geral de 1917 continuamos sentindo na pele a exploração, a repressão, a violência, a fome, a manipulação e os assassinatos cometidos pelos capitalistas e pelo Estado, com o apoio, eventualmente velado, da igreja e da imprensa. Não é necessário afirmar que a situação atual é calamitosa. A classe trabalhadora perde sua identidade e é engolida pela visão de mundo empresarial. Os parcos direitos conquistados através de lutas coletivas são dia-a-dia dilacerados. Os sindicatos se preocupam mais com a entrada anual das cotas do imposto sindical e com as próximas eleições gerais no país do que com os interesses de seus sócios e de sua categoria.
Ao mesmo tempo em que os poderosos empresários e latifundiários determinam há séculos os rumos na Pindorama e não medem esforços para, além de manter e ampliar brutalmente seus lucros, destruir toda organização reivindicativa ou revolucionária da classe operária, os sindicatos passaram a não mais representarem os interesses das(os) trabalhadoras(es). O sindicalismo “oficial”, atrelado ao Estado a partir de 1930 pelas mãos do ditador Getúlio Vargas, nos dias atuais apresenta-se mais como um instrumento de alienação do que motor da emancipação dos trabalhadores. Os sindicatos são estruturas empresariais (sim, os sindicalistas são também patrões na medida em que o órgão torna-se uma máquina que explora a mão de obra assalariada quando justamente deveria combatê-la). As burocracias sindicais, com ex-trabalhadores encastelados em suas direções se mantém à base do conchavo político, atrelamento a um partido político, manipulação de assembleias e silenciamento de toda e qualquer oposição, chegando a contar com os chamados “bate-pau”, espécie de milícia disfarçada de seguranças, para garantir a perenidade dos privilégios para aqueles que estão em posição de poder.
A eleição de um ex-metalúrgico ao mais alto cargo de poder do país não solucionou a questão sindical. Lula não fez a reforma sindical, não acabou com a fascista CLT, não terminou com a famigerada “carta sindical” que atrela as entidades de representação. Quem tem memória se lembra das bandeiras das greves no ABC no final de década de 1970: contra a burocracia sindical e a estrutura getulista que perdurava até aquele momento, em plena ditadura civil-militar. Ao ocupar a presidência, o presidente “dos trabalhadores” não mexeu sequer uma vírgula na estrutura sindical (ou melhor, somente reconheceu as centrais sindicais no apagar das luzes de seu mandato para que pudessem receber um quinhão do imposto sindical). Lula não foi o messias que tanto esperavam e não realizou a única coisa pela qual os trabalhadores esperavam e que poderia, de fato, mudar os rumos político-econômicos do país: reestabelecer o sindicalismo livre e possibilitar uma luta autônoma e com nítido corte de classe. Ao invés disso, manteve tudo como estava, administrando melhor do que os próprios neoliberais os negócios da burguesia e dando a cota de pão e circo necessário para o povo afim de conter qualquer possibilidade de revolta deste contra sua total penúria.
Liberdade sindical significa dizer que os próprios trabalhadores devem decidir sua forma de organização de luta sem intervenção estatal. Tal modelo é sugerido até pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) – entidade tripartite internacional nada revolucionária – e existe em alguns países ricos e centrais. Hoje, pagamos a conta pela passividade (ou traição de classe) dos anos do lulismo: a reforma trabalhista e sindical está sendo realizada sem grandes oposições. A mudança da CLT, apregoada por anos em discursos de certas centrais sindicais, está em andamento, mas está sendo operada destrutivamente pela mão do empresariado. Não é necessário dizer que ela não vem, em hipótese alguma, atender os interesses da classe trabalhadora. Depois de quase 90 anos de peleguismo sindical é fácil perceber porque é tão difícil o(a) trabalhador(a) resistir a esses ataques: a resposta evidencia-se se olharmos para nossa história a partir da década de 1920, quando o governo, católicos, amarelos e comunistas se uniram para expulsar os anarquistas dos sindicatos. Posteriormente passou pela estratégia comunista de “resistir por dentro” do sistema e pela conformação estatal das relações de trabalho e representação sindical, chegando até mesmo à fundação das centrais sindicais partidas, verdadeiras correias de transmissão de diferentes partidos políticos… Foram muitos anos de desmobilização das bases e dirigismo pelego, somado à política partidária como força motriz do sindicalismo tupiniquim e as nababescas vidas de luxo e prestígio que as lideranças burocráticas adquiriram às custas de negociatas e acordos com o patronato. É cristalino como água que todos esses fatores quebram a espinha dorsal de qualquer movimento sindical que se pretenda autônomo, radical e que lutava pelos trabalhadores de fato.
Os sindicalistas anarquistas tiverem sempre um tratamento diferenciado por parte de todas as outras forças políticas em disputa: foram mortos à tiros pela força pública em plena luz do dia, perseguidos pela polícia política através do DEOPS, mandados para campos de concentração como criminosos, expulsos do país como indesejados, assassinados por agentes infiltrados a mando da polícia ou de Moscou, detidos por determinação do policialesco Ministério do Trabalho que agiu como uma força repressiva ao implantar o Decreto-Lei 19.770/31… Desde então não se ouve mais a voz rouca e dissidente de um grupo de pessoas que não aceita a ordem das coisas e deseja, ardentemente, a liberdade e a emancipação através de uma revolução social. As poucas que existem continuam sendo silenciadas de formas cada dia mais esmagadoras. O que há são pelegos, lambe-botas ou hipócritas que falam muito e agem pouco. Para os anarquistas os fins não justificam os meios; para os burocratas os meios são manipulados para a realização de seus fins escusos e espúrios. Essa é a miséria atual de quem trabalha e vive de seu próprio suor.
As centrais sindicais pelegas (e aqui consideramos todas elas pelegas), numa atitude meramente espetacular e sem conteúdo prático-objetivo para a classe trabalhadora, convocaram esse ano algo que chamaram de “greve geral” nos dias 28 de abril e de 30 de junho. Em nossa concepção uma verdadeira greve dificilmente pode ser fruto de uma convocação pela internet e se resumir a uma micareta pelas avenidas das cidades. Pior ainda é chamar de “greve” algo que pode no máximo ser considerado uma paralisação para fazer uma passeata com data para começar e para terminar, construída pelas direções políticas de partidos e entidades sindicais, sem ter passado pelas assembleias de trabalhadores(as). Chamaram tais movimentos de “greve geral”. Quem esteve nas ruas notou que não se generalizou. O dia que o metrô parou e impediu a chegada ao trabalho talvez pudéssemos ter a impressão de um grande movimento, mas não ir trabalhar não é o mesmo que estar em greve. Parar de trabalhar para organizar a luta; cruzar os braços para o patrão mas abri-los aos colegas explorados, tais são as ações de um grevista. Uma Greve Geral ou é construída pela base, pelos próprios trabalhadores, com um espírito de solidariedade e firmeza de intenção coletiva ou não é. Torna-se um carnaval grotesco em que dirigentes fingem que lutam pela classe que supostamente deveriam representar e a massa finge que adere a uma luta que, no fundo, não se reconhece.
Para criarmos formas atuais e efetivas de romper com essa dupla alienação – a do trabalho e a da representação político-sindical-parlamentar – é que se torna urgente conhecer, estudar e debater a organização da Greve Geral Anarquista de 1917.

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Não é necessário explicar o significado da palavra GREVE, ela é já velha conhecida da classe trabalhadora. É um instrumento de luta que um sem número de intelectuais já tentaram conceitua-la, a maioria sem entende-la – e principalmente sem vive-la –, e as direções sindicais praticá-la, sem nela acreditar. O sentido do termo GERAL de uma greve é ainda desconhecido de parte da sociedade, mas não parece difícil de deduzir: é quando um movimento paredista se alastra como um rastilho de pólvora tomando enormes proporções, afetando todos os segmentos da sociedade, mas não sem organização, preparação prévia e muita solidariedade. Já o caráter ANARQUISTA deste episódio histórico específico é o que tratamos de tentar destacar e aprofundar na presente obra.
Adotamos a definição que a professora Christina Lopreato forjou em sua pesquisa: no inverno de 1917 ocorreu uma Greve Geral ANARQUISTA. Essa qualificação foi ignorada ou apagada da história pelos que produziram as versões “oficiais” do movimento, sejam eles atrelados ao Estado e ao capital, sejam eles acadêmicos marxistas. Mas por que consideramos a Greve de 1917 como um movimento essencialmente anarquista? Foi para refletir sobre essa questão que a Biblioteca Terra Livre fez um chamado público para a constituição de um Grupo de Estudos
Entre maio e junho o “Grupo de Estudos Greve Geral de 1917” reuniu-se, contando com cerca de uma dezena de pessoas com origens, interesses e formações diversas, para ler e debater a Greve Geral. Acreditamos que os grupos de estudos são uma maneira concreta e muito eficaz de autoformação pela qual temos tentado criar uma prática educação libertária, baseada no apoio mútuo e na horizontalidade, sem mestres e sem alunos. Uma livre troca de interpretações e visões que vem funcionando há anos e tem produzido resultados interessantes.
Das leituras e debates podemos afirmar que chegamos a algumas conclusões: ao contrário do que a historiografia diz, a Greve de 1917 não foi espontânea (e Lopreato esclarece muito bem essa questão); ela foi um movimento anarquista não porque haviam milhares de militantes anarquistas nas ruas, mas devido à sua organização federalista, por bairros, superando o caráter estritamente sindical do movimento e avançando para pautas gerais, consideradas hoje como “sociais”, que atenderiam, se acatadas, à grande massa da população, fosse ela empregada, desempregada ou vivendo de “bicos” (hoje conhecidos pelo famigerado eufemismo de “empreendedorismo”); houve uma clara opção por um sindicalismo de ação direta, o que levou a greve a adquirir feições de insurreição na medida em que a cidade de São Paulo ficou nas mãos dos trabalhadores e da população pobre em revolta; os membros do Comitê de Defesa Proletária (CDP) eram em sua maioria anarquistas e militantes experientes àquela altura; a repressão foi brutal e o Estado e as elites ficaram realmente apavorados com a extensão e a força do movimento; a imprensa e os grupos políticos no campo do republicanismo liberal que disputavam o poder, tanto em São Paulo como em outras partes do país, aproveitaram o momento para atacar seus adversários e tentar tirar proveito da fragilidade que a situação impunha às autoridades. Se a pesquisa de Lopreato aponta características fundamentais para o entendimento da Greve Geral, ela não consegue, contudo, abarcar a totalidade dos temas que poderiam surgir desta – como a própria autora afirma, assim, há algumas lacunas nos estudos sobre a Greve Geral de 1917, como o papel dos negros, das mulheres, da educação, da organização, dos antecedentes, da repressão, etc., bem como das diferenças entre as mobilizações em outras cidades e estados fora da capital paulista.
O trabalho semeado pelo Grupo de Estudos acabou gerando frutos que se materializaram no formato de uma série de atividades e debates públicos sobre alguns aspectos específicos da Greve Geral e, por fim, na organização do presente livro que visa, por um lado contribuir para o conhecimento e difusão dos acontecimentos de julho de 1917, apresentando alguns aspectos novos, novas fontes e novas interpretações, e por outro afirmar o caráter anarquista com a colaboração de autores, militantes e pesquisadores, que se dedicam seriamente a olhar as fontes, ler jornais e documentos produzidos à época para extrair deles as vozes silenciadas pela repressão policial ou pela pena dos historiadores. Agradecemos publicamente às autoras e autores que produziram os capítulos aqui compilados. Não há dúvida de que o resultado final só foi possível com a colaboração e a intensa troca de ideias entre todas as pessoas envolvidas.
Os fatos de 1917 demonstram a força que a organização autônoma do proletariado tem, reafirmando a velha máxima, sem intermediários, de que a “emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. É um marco para a história da cidade de São Paulo, para a política nacional e para o movimento sindical. Foi, talvez, o episódio mais importante em que o anarquismo e sua perspectiva de sindicalismo livre e revolucionário esteve presente de maneira protagonista. Podemos dizer que a Greve Geral foi um exemplo de anarquismo na prática. Os princípios do sindicalismo revolucionário estiveram marcados no cotidiano do movimento: organização pela base, através das Ligas Operárias por bairros; estrutura federalista que instituiu o Comitê de Defesa Proletária, através de assembleias multitudinárias, órgão que não tinha função representativa, mas funcionou como uma delegação específica e temporária, revogável a qualquer momento pela base; houve ações de boicote, sabotagens, passeatas e outros atos de desobediência civil e ação direta nas ruas; chegou-se à expropriação coletiva de bens de primeira necessidade e à resistência ativa armada, em atos de autodefesa frente aos ataques policiais que beiraram o massacre; e talvez, o maior dos valores colocado em marcha naqueles dias: a solidariedade. Todas essas características demonstram que a Greve Geral de 1917 foi anarquista em sua organização e em seus princípios, sendo a maior demonstração de força da classe trabalhadora que, naquele momento, aderiu aos métodos e estratégias do sindicalismo revolucionário sob orientação dos anarquistas sindicalistas e outras correntes do espectro libertário.
Muitas lições podem ser tiradas desse intenso e inigualável momento de luta operária e popular para os dias de hoje. Estudemos a Greve de 17! Leiamos sua pauta de reivindicações! Interpretemos os interesses em jogo considerando o contexto em que ocorreu. E principalmente, tomemo-la como a mais nobre página da história da classe trabalhadora, exemplo de garra, união e organização autônoma e incontestavelmente anarquista. Viva as trabalhadoras e trabalhadores caídos na luta! Viva toda a população pobre e explorada que se levantou em revolta contra a exploração e a opressão marcando definitivamente com sangue e suor a nossa sociedade! Viva o sindicalismo revolucionário e anarquista!
Mãos à obra, camaradas! Cem anos depois necessitamos do mesmo sentimento de revolta e de auto-organização dos de baixo para seguir combatendo as iniquidades até a total emancipação econômica, política e social da humanidade produtora! Construamos uma vez mais um sindicalismo revolucionário e insurrecional que ocupe as fábricas, os gabinetes e toda a cidade, implementando a autogestão generalizada e arraste, de uma vez por todas, os capitalistas para onde não vão mais dar continuidade aos seus funestos e desumanos projetos: as amareladas páginas dos livros de história que versam sobre um passado demolido por uma nova organização social, o comunismo libertário!

São Paulo, outubro de 2017
Biblioteca Terra Livre